"Nunca é tarde demais para ser o que você poderia ter sido."

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

TEATRO DE ANIMAÇÃO




                                        Kayo e eu: dia da apresentação

Descrição da direção de Cena
Minha dupla era com o Kayo. Ficou combinado que eu iria dirigir a cena dele e vice-versa. Pois bem, em um primeiro momento, imaginamos “O vôo da estrela”.
Era a estória de um menino que ao dormir, sonhava ser uma estrela que passeia pelo espaço visitando vários cenários (montanhas, mares, desertos, geleiras, etc.)
Nesse sonho ele podia voar. Após voar por todos esses lugares a estrela apaga e ele acorda. Essa foi uma primeira dramaturgia, porém, descartamos, pois quando o professor nos orienta, algumas coisas foram mudando, desde a imagem disparadora.
No jogo de palavras havia ação, devido o verbo “vôo”. A utilização de um verbo acabou condicionando a história, e não era isso que devia ser trabalhado. Abrimos para a turma onde outras propostas foram dadas como por exemplo, “O Ronco da estrela”, cuja estória seria de um menino que brilha onde não tem luz. Porém, nenhuma das propostas agradou o Kayo.
Já em outro momento, pude interferir mais enquanto diretora, e ao consultar novamente o professor, nasceu outra imagem disparadora. Chegamos na “Estrela Insônia”. A proposta começou a fazer mais sentindo ao que Kayo havia imaginado.
Partindo dessa ideia conversei com o Kayo perguntando quem seria esse objeto. Imaginamos um objeto com luz, onde o grande conflito seria a dificuldade dele em dormir. Esse objeto nasce e ao passar dos anos tenta de todas as formas dormir, mas não consegue. A partir daí conseguimos iniciar a narrativa para a cena.
  
A Narrativa
Era uma vez uma lanterna que nasceu em uma fábrica da cidade. Sua lâmpada era forte e iluminava tudo por onde passava. Esta lanterna percebe que durante a noite, as coisas ao seu redor ficam quietas e adormecem. Porém, a lanterna não consegue fazer o mesmo.
Ao longo da vida ela vai buscando modos de dormir, mas nada que faça, a faz adormecer. De repente, percebe que, aquilo que a deixa acordada é a própria luz que emite. Quando ela finalmente consegue apagar esta luz, ela dorme. Porém, é o fim de sua vida.

A Técnica e os materiais pensados
Esse objeto seria uma lanterna de pilhas. O momento que nasce é o momento que ela ascende e daí em diante ela não consegue mais apagar. Isto seria manipulado com as mãos, pelo ator.
O que pensamos como referencial metafórico, foi o simbolismo da vida e de que só realmente descansamos quando morremos. Usando a lanterna, nosso objetivo era comparar com as fases da vida, começando com um recém-nascido, cheio de energia, passando pela velhice com as luzes enfraquecendo, e por fim, a morte, no momento em que se apaga.
No momento em que a lanterna se apaga, recorremos à luz negra. Para o surgimento de um cenário fluorescente, dando a ideia de sonhos.
Para o cenário foi pensado objetos feitos com papel, como estrelas, pássaros e outros detalhes, que remetem ao paraíso, idealizado pelo homem, após a morte.
Orientei o Kayo a utilizar um pano de TNT preto com pinturas fluorescentes e com algumas aplicações feitas de papel branco como estrelas recortadas ou mesmo origamis de pássaros.
Nesse momento é como se a lanterna finalmente tivesse conseguido descansar e pudesse sonhar em paz. A cena termina com a lanterna deitada e uma música de ninar ao fundo, indicando que finalmente ela pode descansar em paz e dormir feito um bebê.



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Auto do Círio: vivência e compreensão da Etnocenologia


Esta foi a disciplina ETNOCENOLOGIA, realizada no 5º semestre do curso de Teatro, ministrada pelo Dr. Miguel Santa Brígida. 
Falei do Auto do Círio, pois este ano de 2012 vivi o auto, participei e me emocionei bastante. Observei a manifestação pelas lentes etnocenológicas e resultou neste artigo. Bom, super feliz com o EXCELENTE que recebi, dividindo com vocês um pouquinho do que produzi academicamente.
Maira Tupinambá


Introdução
Para um melhor entendimento resolvi agrupar os conceitos de Armindo Bião, presentes no texto “Um léxico para a etnocenologia” tomando como exemplo o auto do círio, nossa expressão maior da fé artística em Belém do Pará.
 A proposta é, assimilar os conceitos de Bião genialmente organizados em seu texto, com exemplos observados durante o auto do círio. Assim, inicialmente, no âmbito da epistemologia, terremos as 12 palavras listadas por Armindo, além de definidas, agora exemplificadas com imagens e acontecimentos tomados no auto, objetivando uma melhor compreensão dos conceitos de etnocenologia.



Teatralidade

“Palavra dicionarizada em língua portuguesa (HOUAISS,2001, p. 2682; AURÉLIO, 1986, p. 1655), originada do vocábulo grego que se constituiu para designar a ação e o espaço organizados para o olhar, que compreendo como uma categoria reconhecível em todas as interações humanas. De fato, toda interação humana ocorre porque seus participantes organizam suas ações e se situam no espaço em função do olhar do outro.” .”(Bião, um léxico para a etnocenologia –pág 34 e 35)

Percebi em todas as interações no auto, cujas pessoas envolvidas agem, simultaneamente, como atores e espectadores da interação. A consciência reflexiva de que cada um aí presente age e reage em função do outro. isto ocorre de modo claro e difuso. Trata-se sim de um hábito cultural enraizado – uma espécie de segunda natureza, individual e coletiva – amplamente praticado pela maioria absoluta dos indivíduos de cada sociedade, de um modo inerente a cada cultura, que codifica suas interações ordinárias e transmite seus códigos para se manter viva e coesa. Portanto o auto do círio possui teatralidade como característica etnocenológica, uma vez que seus participantes e espectadores demonstram as características supra citadas.



Espetacularidade
Bião compreende como uma categoria também reconhecível em algumas das interações humanas. De fato, em algumas interações humanas – não em todas – percebe-se a organização de ações e do espaço em função de atrair-se e prender-se a atenção e o olhar de parte das pessoas envolvidas.
Até aqui é clara a constatação desta característica no auto do círio, prossigamos.

Aí, e então, de modo – em geral – menos banal e cotidiano, que no caso da teatralidade, podemos perceber uma distinção entre (mais uma vez, de modo metafórico) atores e espectadores. Aqui e agora, a consciência reflexiva sobre essa distinção é maior e – geralmente – mais visível e clara. Trata-se de uma forma habitual, ou eventual, inerente a cada cultura, que a codifica e transmite, de manter uma espécie de respiração coletiva mais extraordinária, ainda que para parte das pessoas envolvidas possa se tratar de um hábito cotidiano. Assim como a teatralidade, a “espetacularidade” contribui para a coesão e a manutenção viva da cultura.

Mais uma vez o auto do círio possui estas descrições quando percebemos a interferência na rotina das pessoas de modo a levá-las a assistir o acontecimento, tirando de suas rotinas, direcionando grande parte da população à concentração na cidade velha, como espectadores sedentos por demonstrações da arte em suas mais variadas linguagens, ou simplesmente no desejo de ver a santa subir aos céus levada por balões.

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Estados de consciência

“Esta expressão é parte do jargão das ciências do homem interessadas nos rituais, que provocam a alteração do modo mais habitual de ter-se consciência do mundo e de si próprio. Daí falar se de estados modificados (LAPASSADE, 1987) ou alterados (BOURGUIGNON, 1973) de consciência, frequentemente associados, por exemplo, ao transe, ao êxtase e à possessão” (BIÃO, 1990, p. 132- 142).

É notório o estado em que as pessoas que acompanham o auto do círio ficam. Neste caso, o êxtase acontece para a plateia e para os atores participantes.

“Mais contemporaneamente, a relação entre artes e formas de espetáculo e estados modificados de consciência tem sido ressaltada, levando-nos a sugerir que o treinamento corporal e mental de dançarinos e atores, por exemplo, gera, não apenas estados modificados de corpo – relembrando as reflexões de Marcel Mauss (1985) sobre as técnicas de corpo – mas também gera estados modificados de consciência”. (Bião, Um léxico para a Etnocenologia –pág 36)


Estados de corpo

Expressão que Bião utiliza em associação à anterior para referir-se por um lado à indissociabilidade, tão cara à etnocenologia, entre corpo e consciência e por outro para reportar-me às artes do espetáculo que se sustentam em boa medida na prática e exercício de alteração dos estados de corpo habituais do dia a dia.

Identifica-se esta característica, na atuação individual dos atores participantes do auto principalmente quando trazem às ruas personagens lendárias, mitos e orixás. Notam-se Técnicas “extracotidianas” de corpo.

No entanto, do ponto de vista léxico, Bião considera que a expressão, antropologia teatral, reforça o etnocentrismo europeu, que privilegia o teatro em detrimento de outras artes e formas espetaculares.
Bião também prefere as expressões: estados de corpo e estados de consciência para tratar dos objetos da etnocenologia:

“E certo que esses estados, dinamicamente construídos e mantidos apenas temporariamente, quando nos referimos à vida da arte, são construídos com base em práticas, comportamentos e técnicas.”(Bião, um léxico para a etnocenologia –pág 37)

Isto confirma a exemplificação sobre os atores que interpretam os orixás. É como se as pessoas realmente acreditassem que mães e pais de santo estão desfilando, tamanha a modificação corpórea baseada em pesquisas técnicas feitas pelos próprios atores e a emoção sentida na hora da representação criando movimentos e expressões geradas e induzidas a partir da atmosfera de energia fornecida pelo auto.






Transculturação

“O conceito sugerido por Fernando Ortiz (1973) e comentado por Rafael Mandressi (1999) aproxima-se decerto de algumas possíveis leituras de outros conceitos correlatos mais antigos. Mas sua proposição, cunhando um novo termo, reafirma o fenômeno do contato cultural como gerador de novas formas de cultura, distintas das que lhes deram origem, o que remete ao desejo de identificação de suas matrizes culturais(...)” (Bião, Um léxico para a Etnocenologia –pág 37)

O auto do círio é uma transculturação. Ele gera a cultura do preparativo para o auto. Vamos considerar também que ele se torna objeto de estudo para a arte local, tamanha sua variedade nas linguagens, sua riqueza de acontecimentos que partem da atmosfera de energia que só acontece no mês do círio.

Matrizes estéticas

“Essa expressão é mais uma noção teórica “mole” que um conceito “rígido” (MAFFESOLI, 1985, p. 51, 52 et seq., 63), considerando-se que, no âmbito geral da cultura, assim como no campo mais específico da estética, pode-se sempre buscar compreender um fenômeno contemporâneo a partir do esforço de identificação de sua filiação histórica e de seu parentesco atual com outros fenômenos. A utilização dessa expressão – matrizes estéticas, sempre no plural, possui, do ponto de vista retórico, uma consciente proposição paradoxal, posto que a palavra matriz remete à ideia de mãe, que também remete à ideia de unicidade, quando pensada como uma e única pessoa, do gênero feminino,  que alimenta em seu próprio corpo e assim é explicitamente geradora de outra, enquanto a palavra matrizes multiplica esse ente, ainda que se referindo a um mesmo fenômeno – seu descendente direto(...)” (Bião, Um léxico para a etnocenologia –pág 37-38)

Durante o auto, cada fenômeno possui simultaneamente múltiplas matrizes, fruto que é de diversos processos de transculturação. A isso, Bião chama de “família de formas culturais aparentadas [...], identificadas por suas características sensoriais e artísticas, portanto estéticas, tanto num sentido amplo, de sensibilidade, quanto num sentido estrito, de criação e compreensão do belo” (BIÃO, 2000, p.15).
Assim, podemos falar, por exemplo, de matrizes estéticas, a partir de referências linguísticas, religiosas, geográficas, históricas, geo-históricas, étnicas, técnicas, temáticas, teóricas, tecnológicas etc. todas presentes no auto.
Temos santos, caboclos, orixás, duendes, fadas, anjos. Uma grande mistura mas que no auto fazem sentido e dialogam entre si.

Dos sujeitos

“O conjunto das noções de alteridade, identidade, identificação (MAFFESOLI, 1988), diversidade, pluralidade e reflexividade (GARFINKEL, 1967; TURNER, 1979, p. 65; SCHÜTZ, p. 1987, p. 114 et seq.) remete à consciência das semelhanças e diferenças entre indivíduos, grupos sociais e sociedades, por um lado e, por outro, à capacidade humana de refletir a realidade e sobre ela, de modo consciente, experimentando e exprimindo sensibilidade, sensorialidade, opções de prazer, beleza, desejo e conforto. Nesse conjunto de noções, vale ressaltar a emergência da noção de “identificação”, como uma construção temporária, existencialista e dinâmica, contraposta à de “identidade”, como uma categoria definitiva, essencialista e estática, que se encontraria em crise na contemporaneidade.” (BIÃO, Um léxico para a etnocenologia –pág 38)

Observamos no trajeto do auto todas estas categorias citadas abaixo, presente tanto nos atores participantes quanto na plateia que acompanha.


Alteridade
A categoria de reconhecimento pelo sujeito de um objeto humano (no caso da etnocenologia) distinto de si próprio.

Identidade
A categoria de reconhecimento da especificidade do sujeito em relação à alteridade.

Identificação
A categoria de momentâneo reconhecimento do sujeito, em parte ou no todo, na alteridade.

Diversidade
A categoria que permite ao sujeito reconhecer a coexistência das diferenças humanas.

Pluralidade
A categoria que, como à anterior, dá ao sujeito condições de reconhecer a coexistência das – reafirme-se – múltiplas e variadas diferenças humanas.

Reflexividade
A categoria referente ao sujeito que dá conta de sua capacidade de pensamento e teorização (reflexão), espelhando as semelhanças e diferenças reconhecidas em sua relação com os objetos, suas identidades e identificações.




Conclusão
Desde 1993, o Auto do Círio anima as ruas do Centro Histórico de Belém durante os festejos do Círio de Nazaré. Este ano, o evento trouxe o tema “O Corpo Humano dos Artistas de Nazaré” e na sexta-feira, 12 de outubro, diversos artistas locais como Fafá de Belém, Lia Sophia, Grupo Folclórico Kuarup da Serra do Carajás, Orquestra de Violoncelistas da Amazônia, Carlos Gutierrez e Dominguinhos do Estácio - considerado o padrinho do Auto – apresentaram um show para o público presente.
O Auto do Círio para mim representa a cultura paraense em seu esplendor artístico. É o carnaval devoto a Nossa Senhora. O teatro de rua traz uma emoção constante para quem participa.
Os tambores das escolas de samba rufam com o som dos atabaques. Asas brancas de anjos confundem-se com o colorido dos carrinhos de refrigerante. Atores e atrizes nascem, a cada segundo, dos paralelepípedos.
O cenário é o bairro da Cidade Velha, em Belém do Pará. E a cultura popular é a grande protagonista da festa. O maior espetáculo de rua organizado por uma universidade do Brasil.
Faço minhas as palavras deste depoimento emocionado de meu colega, o ator Álvaro de Souza:
“Viver o auto! Foi assim que me senti ao estar no auto, tudo tem inicio no primeiro dia de ensaio, quando você reencontra amigos que só vê de ano em ano, é matar a saudade, é confraternizar, é sonhar e mais, é fazer do seu trabalho uma forma de demonstração de fé e dançando, cantando ou perfomando homenagear nossa Santinha. Viver o auto! é entregar-se de corpo e alma, é deixar que o seu corpo fale por você. No auto me sinto completo, no chão descalço, o povo bem perto e toda energia se funde num força só, e toda multidão se torna um só cortejo. O Auto além de ter toda esse viés acadêmico também tem a função de inclusão social, pois é, um espetáculo onde todos podem participar, enriquece e fortalece nossa cultura nossa história. Viver o Auto, é viver a arte, a fé e a alegria de estar numa grande família.”

E constato por fim, a exemplificação deste acontecimento artístico como um exemplo completo para o entendimento da etnonocenologia, onde a vivência e a experimentação de poder sentir a energia gerada durante o auto, poder sentir as alterações no corpo, o êxtase durante o samba, a observação de cada componente, de cada alegoria, de cada figurino, de cada interpretação, me proporcionaram a reflexão e o gosto por estudar esta disciplina tão brasileira, tão nossa.



Maira Tupinambá